domingo, 4 de julho de 2010

XV Domingo Comum - Lc 10,25-37

 

No domingo passado, refletimos sobre as duas colunas sobre as quais se fundamentaram a Igreja, aquela que recitamos no Credo e que é Una, Santa, Católica e Apostólica. A Igreja como afirma o Concílio Vaticano II é “o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (Lumen Gentium 1). A humanidade do Filho de Deus serviu como instrumento de união e de salvação. Por isso, não podemos separar Cristo da Igreja (“Ele é a cabeça do corpo, isto é, da Igreja – II Leitura), nem mesmo ao interno da Igreja seria bom distinguir entre Igreja Santa e uma Igreja só como uma organização externa. Este é o pensamento do Concílio.

O Evangelho de hoje nos leva a ocupar-nos ainda sobre a Igreja, a refletirmos sobre um de seus principais âmbitos: a caridade, o amor. Escreve Bento XVI na sua encíclica Deus Caritas est número 20: “o amor do próximo, radicado no amor de Deus, é um dever antes de mais para cada um dos fiéis, mas o é também para a comunidade eclesial inteira, e isto a todos os seus níveis: desde a comunidade local passando pela Igreja particular até à Igreja universal na sua globalidade. A Igreja também enquanto comunidade deve praticar o amor”.

O Papa ainda continua na mesma encíclica no número 22: “A Igreja não pode descurar o serviço da caridade, tal como não pode negligenciar os Sacramentos nem a Palavra”. Os outros dois âmbitos de vida que não podem faltar na Igreja, de fato, juntamente com a caridade, são a liturgia e a catequese (palavras recentemente recordadas pelo próprio Papa na vigília por ocasião do encontro internacional de sacerdotes em 10 de junho de 2010: “são três as colunas do nosso sacerdócio: os Sacramentos, o anúncio da Palavra e o amor de Cristo”).

O melhor testemunho que a Igreja pode dar a quem observa de fora é o exercício da caridade. A parábola do bom samaritano (que lemos hoje) no curso da história nunca deixou de interpelar a consciência dos fiéis em Cristo; e, em nossos dias atuais mais do que nunca. Para evitar o perigo de passar sem levar seriamente em consideração este tema, examinamos o trecho evangélico desde o princípio.

Logo no início, o Evangelho nos lembra antes de tudo que o problema da caridade é uma questão religiosa. O doutor da lei, esperto nas questões teológicas, cita o duplo mandamento do amor, a Deus e ao próximo, mas o faz depois de ter interrogado Jesus sobre a eternidade: “Mestre, o que devo fazer para herdar a vida eterna?”

Sobre o seu destino eterno qualquer um se lança totalmente. Este é o poder da religião. A busca da própria felicidade pessoal, porém, não pode se separar do amor, amor para com Deus e amor para com o próximo. Será feliz para sempre, quem desde agora tiver começado a amar Deus e os outros que como ele são irmãos em Cristo.

O doutor da lei conhecia as indicações que Deus tinha dado por boca de Moisés e a contro-pergunta de Jesus (o que está escrito na lei?) que o convidava a dar sozinho a resposta, e, de fato, ele não erra o veredicto: é preciso amar a Deus com todo o coração, com toda a alma e com toda a força e com toda a inteligência e ao próximo como a si mesmo.

Encontra assim confirmada a reflexão do livro do Deuteronômio, sempre a obra de Moisés que diz: “Este mandamento que hoje te dou não é difícil demais nem está fora do teu alcance. Não está nem no céu, para que possas dizer: 'Quem subirá ao céu por nós para alcançá-lo? Nem está do outro lado do mar, para que possas alegar: 'Quem atravessará o mar por nós para apanhá-lo? Ao contrário, esta palavra está bem ao teu alcance, está em tua boca e em teu coração, para que a possas cumprir” (I Leitura).

Então será só uma questão de boa vontade? Podia parecer que sim se não fosse a sucessiva pergunta do doutor da lei que nos ponhe de sobreaviso (quem é o meu próximo?). Sem a ajuda da graça de Cristo é impossível cumprir perfeitamente o mandamento do amor de Deus e do próximo. De fato, entre as boas intenções e as realizações práticas há um abismo.

Com a pergunta: “Quem é o meu próximo?”, o doutor da lei queria justificar-se no sentido de perda que se prova diante de uma tarefa genérica e juntamente árdua (para o judeu, o próximo era um igual a ele somente, outro judeu). Assim, “de onde posso começar no amor para com o próximo?” parece pedir o doutor da lei, “e depois desde que ponto devo chegar?” a resposta de Jesus é um obra-prima não tanto porque é original e bem construída, mas porque é a descrição daquilo que ele, Jesus naquele momento estava levando adiante.

O bom samaritano da história de fato é um perfeito autorretrato do próprio Senhor. Aquele que Jesus atribui ao samaritano, na realidade, é aquele que ele Jesus estava para fazer. Os Padres da Igreja não deixaram escapar a ocasião de esclarecer as várias correspondências e interpretaram assim o relato.

“A humanidade, criada por Deus, estava em Jerusalém, isto é, na Paz do paraíso terrestre, lugar da presença de Deus em meio ao povo. Mas o homem se moveu em busca de uma outra felicidade, para a cidade do pecado, que é Jericó. Como acontece para o filho pródigo, este abandono do pai foi fatal: Satanás, o tentador, que o desnuda do dom da amizade com Deus e o fere nas suas próprias capacidades humanas; agora, o homem, encontra-se sozinho, é incapaz de resistir ao mal, e segue destinado à morte pela estrada da história.

O sacerdote e o levita da Antiga Aliança passam ao lado desta humanidade, mas é uma passagem ineficaz. Até que vem um samaritano, justo Cristo Salvador, que ajoelhando-se sobre este homem, o põe sobre a montaria do animal, a humanidade por ele assumida, para levá-lo ao local – que é a Igreja, dentro da qual o homem possa reencontrar cura e vida... na espera do seu retorno! No entanto, ali é possível a sua recuperação mediante as duas moedas deixadas pelo samaritano, que são a Palavra de Deus e os Sacramentos”. Esta é a leitura dos Padres da Igreja.

Fazendo o percurso de Jerusalém (760m de altura) para Jericó (240m abaixo do nível do mar), que é um percurso de descida já que Jerusalém está (27 km), um anônimo peregrino da Idade Média esculpiu sobre uma pedra uma frase ainda hoje existente: “Amigo que lê, mesmo que sacerdotes e levitas passem além da tua angústia, saiba que Cristo é o bom samaritano, que terá compaixão de ti, e na hora da tua morte, te levará a pousada eterna”.

Na espera desta destinação final, entretanto, nós somos convidados a tomar lugar na “pensão” terrena que é a Igreja e se nestes ambientes nos sentimos bem, não devemos nos esquecer daqueles que fora daí padecem e esperam também o nosso alívio; se pelo contrário, por vários motivos encontramos que nesta casa que é a Igreja há algo para melhorar, somos convidados a fazer a nossa parte desde o seu interno, de modo construtivo, superando as difidências e as resistências humanas e tornando-nos nós mesmos operadores daquela caridade da qual sofremos a falta. Também esta é caridade e também na Igreja e pela Igreja há tanto a se fazer.

O Evangelho termina com um mandamento de Jesus: “Vai e faze a mesma coisa”.

Comece a praticar. Ajude com quanto puder! SOS Pernambuco e Alagoas

www.caritas.org.br

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